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Como ensino filosofia? # 33 - Habilidades e competências

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A pergunta “para que estou aprendendo isso?” passa constantemente pela cabeça de alunos do ensino médio e, por vezes, se materializa nas vozes de alguns deles. A questão pode assumir um tom de desafio ao professor, mas também pode ser bem recebida como matéria para debate em sala. Contudo, o fato é que esta pergunta também se passa, ou deveria se passar, na mente dos professores enquanto ensinam. Me lembro que em certos dias de crise existencial enquanto educador, naqueles dias em que as coisas definitivamente não vão bem em sala, alguns dos questionamentos que me rodeavam tinham a ver justamente com isso: que diferença fará na vida de meus alunos saber sobre estas coisas que estou tentando ensinar?

  Para usar meus próprios conceitos construídos em episódios anteriores (#29), penso que esta pergunta sobre a finalidade de tais e tais conteúdos pode ser colocada e respondida em dois níveis de sentido.

  Em um primeiro nível mais insider, isto é, pensado de dentro de toda a estrutura …

Como ensino filosofia? # 32 - Conceitos essenciais

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Revirando minhas anotações encontrei este vídeo de 2017 que, embora breve, aponta para um fato significativo sobre o planejamento das minhas aulas de filosofia.    Já desde a minha formação durante a licenciatura sempre estive preocupado com o que ensinar para meus alunos. Naquele momento, me parecia que duas habilidades fundamentais deveriam bastar para fazer um grande professor de filosofia para o ensino médio: ser capaz de estabelecer uma relação humana verdadeira e alcançar um bom nível de companheirismo e cooperação; além disso ter a astúcia de encontrar conteúdos da filosofia que pudessem realmente interessar aos alunos, deixando de figurar como algo distante e alheio.

  Quanto à primeira habilidade fui me dedicando ao longo destes anos a desenvolvê-la e praticá-la. Hoje continuo a considerá-la como fundamental. Quanto à segunda, passei a entender que as coisas não são tão simples assim. Essa busca pelo santo graal, isto é, o conjunto de conteúdos capaz de garantir o interesse …

Como ensino filosofia? # 31 - Críticas ao meu ensino de filosofia

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Como é possível que aquele professor que sempre foi visto como “o diferente” na escola por causa de suas aulas e de seu modo de se relacionar com os alunos esteja aqui classificando seu trabalho no campo da pedagogia tradicional?

   De fato não posso negar a presença de vários elementos em minha forma de ensinar filosofia que ultrapassam o molde do ensino tradicional e tem dado bons resultados nos últimos anos. Eles estão justamente apresentados na terceira temporada desta web-série, na forma de princípios gerais e de estratégias concretas. Entretanto, a reflexão de hoje pretende ir ao fundo, analisar a forma básica do meu ensino de filosofia. E aí não há como disfarçar: este fazer em sala de aula, dia após dia, ainda se enquadra no seguinte formato:

É verdade que fiz várias adaptações em todos os pontos deste esquema de forma a não deixar as coisas tão monótonas. Assim,

- O próprio formato da matéria a copiar no caderno não se resume a textos corridos; por vezes contem esquemas co…

# 30 - Não há tempo para mudar

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Como um espelho da sociedade pós-moderna, a escola reflete o ritmo acelerado do cotidiano. Em primeiro plano, isso é sentido por alunos e professores através do próprio sinal sonoro que determina o que aprender a cada 45 minutos. Se, por um lado, o aluno precisa estar a disposto a mudar de objeto de aprendizagem a cada uma ou duas aulas, o professor precisa se acostumar ao fato de que, uma vez soado o sinal que indica o final da aula, todas as atenções se desligam automaticamente num ato de puro condicionamento operante.

  Mas para além deste ritmo de aprendizagem tenazmente definido pelo relógio, a escassez de tempo se mostra mais dramática na tarefa essencial de organização e planejamento de atividades escolares. Como tentei dizer no vídeo, a falta de tempo para planejar, implementar e acompanhar o andamento de diretrizes e projetos acaba por frustrar as boas intenções de tantos profissionais da educação. Enquanto equipe (professores, setor pedagógico e direção) tudo o que possamo…

Como ensino filosofia? # 29 - Cíticas à educação escolar/ parte III ( críticas insiders e outsiders)

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Levando a sério e verificando na prática a validade destas críticas à educação escolar (apresentadas nas duas últimas postagens e também neste vídeo), em diversos momentos da minha carreira na escola pública senti que meu trabalho diário na sala de aula estava sendo um grande erro. E enquanto estava escrevendo esta última linha me lembrei de uma nota antiga que postei no facebook. Fui procurar e ela ainda está por lá, foi escrita em junho de 2015. Reproduzo aqui:


Sabe aquele antigo vídeo clip do Pink Floyd em que a escola é representada como uma esteira rolante na qual crianças com caras de boneco são conduzidas a um sinistro moedor, resultando dali uma massa uniforme?

Pois então, meu emprego na escola pública é "operador de esteira". E, semana após semana, enquanto vou ajudando a operar a imensa máquina fico sonhando com o dia em que os meninos e meninas vão despertar, decidir deixar de ser apenas mais um tijolo no muro e acabar me jogando no fogo junto com os escombros.

Como ensino filosofia? # 29a - Luto

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A todos os que acompanham o projeto como ensino filosofia? decidi adiar o Post 29 e dedicar este espaço a uma breve reflexão sobre o lamentável incidente na escola Raul Brasil em Suzano.

Retornamos quinta-feira que vem com mais um episódio da série.



Sem mais palavras.

Como ensino filosofia? # 28 - Críticas à educação escolar / parte II (sobre o filme Educação Proibida)

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A compreensão de que a educação escolar se encontra em crise pode se dar em níveis bem diferentes e está condicionada à própria ideia que temos do que venha a ser “educação” e “desenvolvimento”. Em um nível mais raso, a crise na educação tem a ver especificamente com condições materiais: escolas sucateadas, professores mal preparados, falta de recursos, livros e materiais pedagógicos, tecnologias, etc., etc. Esse geralmente é o nível de compreensão dos discursos políticos durante as campanhas, que associam o sucesso da educação a mais recursos e investimentos. Nesta perspectiva um investimento massivo em recursos para a educação, nos moldes como ela se encontra, seria o suficiente para resolver o problema (embora essa media costume ficar apenas como promessa de campanha mesmo).

   Em um nível intermediário, já se pode perceber que e educação escolar padece de um problema “humano” mais complexo: professores mal remunerados que precisam estender sua carga horária ao máximo e não podem …