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Como ensino filosofia? # 21 - Compartilhar um projeto pessoal

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Dividir algo com meus alunos tornou-se um hábito. Com muito frequência conto a eles algo que vi, que vivi, que li ou que ouvi. Por vezes isso ocorre em meio a algum exemplo ou relação com o que estamos estudando, mas outra vezes não; é apenas para puxar assunto. Fazendo isso eu os entretenho, mas também acabo ensinando muitas coisas indiretamente.
   Por conta deste hábito, com o passar do tempo percebi como é significativo compartilhar um projeto pessoal, ou seja, algo que você está desenvolvendo ao longo do ano letivo. Essa percepção ocorreu de forma bem natural: como eu costumo contar aos meus alunos um pouco da minha história de vida no primeiro dia de aula, todos eles ficam sabendo do motivo pelo qual me mudei, há sete anos, de Florianópolis para o município de Garopaba. E o que me trouxe para cá foi a intenção de ter um contato mais intenso com a natureza, cultivando parte dos meus alimentos. A este nosso projeto de vida eu dei um nome: “(agri)cultura de subsistência”.

   Assi…

Como ensino filosofia? # 20 - Sobre ser legal

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Uma sala de aula, como qualquer reunião social, consiste em um jogo de forças; de energias. Alguns professores têm sucesso em submeter todas as demais forças da sala à sua própria; por bem ou por mal. Este método, onde se opõe uma força às demais funcionou muito no passado e até pode continuar funcionando, mas sob a pena de que, a todo início de ano, o professor encontre pela frente o desafio de submeter cada classe à sua influência, seja da maneira que for. Alguns o fazem pela ostentação de uma sombria fama autoritária; outros de forma mais leve. Mas será este o único jeito?

  Das minhas aproximações com a sabedoria milenar do Yoga, aprendo que o meio de superar forças que às vezes nos excedem é não se opor frontalmente a elas; mas deixar que encontrem seu fluxo. Mestre Hermógenes, em Yoga para nervosos (s/d) dá um fantástico exemplo: o do nadador experiente, que ao se ver em meio a uma forte corrente, não tenta nadar contra ela, mas se deixa levar fazendo uma volta mais longa; por…

# 19 - O jogo das perguntas

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O jogo das perguntas
Como descrevi no vídeo, o jogo das perguntas é uma dinâmica de grupo que reservo para os momentos em que estamos copiando a matéria no quadro. Ao longo dos anos esta dinâmica deixou de ser apenas um passatempo para se tornar parte integrante do meu ensino de filosofia. Isto por que ela favorece um tipo de aprendizado que passei a considerar com uma das coisas mais necessárias e urgentes para o ensino escolar: o desenvolvimento da inteligência emocional.

  O mais importante não é passar por várias perguntas, mas sim criar um ambiente onde a subjetividade possa aparecer de forma segura na sala de aula. Com as perguntas eu abordo temas pessoais ligados aos sentimentos, que raramente figuram como objeto de qualquer disciplina. Mas não se trata de questões que levem o aluno a expor sua vida pessoal em detalhes, e sim aspectos subjetivos mais internos relacionados ao modo como todos nós lidamos com nosso ser. Dessa forma o que vai se fortalecendo à m…

Como ensino filosofia? # 18 - Ensinar para todos é uma utopia

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Ensinar para todos é uma utopia


  As reflexões feitas nesta série partem diretamente do chão da sala de aula, do fazer diário da educação junto aos jovens do ensino médio. Assim, o princípio geral de que “ensinar para todos é uma utopia”, talvez pareça de início uma posição conformista, ou mesmo exclusivista, sugerindo a imagem daquele professor que só dá atenção aos seus alunos mais interessados e capazes. Mas não é isso que pretendo afirmar.

A noção de que muito raramente se consegue a atenção plena de uma turma de ensino médio advém de uma posição realista e me ajuda justamente a não comprometer tanto a dinâmica das minhas aulas, como a maioria dos professores costuma fazer ao intercalar a exposição do conteúdo com chamadas de atenção e broncas recorrentes. Ao manter uma “expectativa de audiência” um pouco mais baixa, eu vou seguindo com minha exposição ou comentários e permito que os alunos se incluam cada um a seu tempo no ritmo da aula. As vezes isso ocorre naturalmente, as vezes…

Como ensino filosofia? # 17 - Como ler um texto?

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Como ler um texto? Este é um artigo aporético.

  Me lembro que quando comecei a pensar seriamente em dar aulas de filosofa, eu me enxergava selecionando trechos de textos filosóficos e lendo com meus alunos. Embora soubesse das dificuldades para fazer com que jovens leiam mais e melhor, e embora ciente das dificuldades específicas que envolvem a leitura filosófica, eu pensava que talvez o segredo estivesse na seleção correta de pequenos trechos e em um trabalho mais atencioso de leitura conjunta. O empenho do professor deveria fazer a diferença. Eu iria então, com paciência, avançando na exposição e compreensão de pequenas partes do texto e esclarecendo ideias que não estavam evidentes aos alunos. Estes por sua vez, gradualmente começariam a compreender o texto em sua inteireza, reconhecer o seu valor enquanto uma “peça do pensamento humano” e, talvez, até admirar a habilidade do autor em conduzir nossa reflexão através de palavras tão bem colocadas… Mas isso foi um sonho que em pouco …

Como ensino filosofia? # 16 - Sobre ouvir música

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Sobre ouvir música
  Se eu tivesse na escola minha própria “sala de filosofia”, onde recebesse todas as minhas turmas para as aulas, então certamente eu teria lá um toca-discos. Aí meus alunos poderiam vivenciar a experiência completa de ouvir o álbum de um artista ou de uma banda: enquanto os ouvidos acompanham a música, as mãos e os olhos investigam a capa do disco, o encarte e as letras. Uma atenção maior talvez revele o ano da obra e outros detalhes técnicos da gravação; algo muito diferente de simplesmente baixar todas as músicas de seu artista preferido em mp3.

   Mas de volta do sonho para a realidade das salas de aula, apesar do potencial das músicas como conteúdo para o ensino de filosofia, foi necessário um esforço considerável para vencer as dificuldades envolvidas em apresentar uma música para meus alunos. Como eu disse no vídeo, conseguir a atenção e o silêncio de uma turma inteira a ponto de apreender a letra de uma música não é tarefa fácil!

   Uma das formas mais comuns …

A GRANDE ARTE: VIVER E SER FELIZ

Eis um dos bons textos produzido na Unidade de aprendizagem "Filosofia na Grécia Antiga".


A GRANDE ARTE: VIVER E SER FELIZ
Edvaldo Nazareno Carvalho Faria[*]
Se não revelar o que penso através de uma declaração formal, o farei através de minha conduta. Não julgais que ações são provas mais confiáveis do que palavras? (SÓCRATES, 2012). Apaguemos a lanterna de Diógenes; achei um homem. (ASSIS, 1997). Se o que você possui lhe parece insuficiente, então, mesmo que você possua o mundo, ainda irá sentir-se infeliz. (SÊNECA, 2000).
Do que eu preciso para ser feliz? Essa enquete poderia ser feita nos dias de hoje e obter-se-iam sugestões como estas: dinheiro, muito dinheiro; bens, em grande quantidade; “um milhão de amigos”, diria um cantor popular. Parece inacreditável, mas há dois milênios muitos filósofos debruçaram sobre essa questão e nos surpreenderam com suas inusitadas sugestões para se adentrar o território da Felicidade. Homens como Antístenes de Atenas, Diógenes de Sínope, Pi…