Revolução no papel


Quando comecei a estudar com mais calma documentos oficiais sobre a educação, como os PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais) e versões anteriores da Proposta Curricular de Santa Catarina (1998), fiquei bastante surpreso.

Em termos de concepção teórica, temos ali perspectivas bastante avançadas sobre educação. Não se pode dizer, neste sentido teórico (do que está no papel), que o ensino estadual sustenta uma postura retrógrada. Por exemplo:


   Há, portanto, uma relação do conhecimento considerado mais legítimo em cada tempo, com o poder. Assim, quanto mais esse conhecimento estiver concentrado nas mãos de poucos, maior é a possibilidade de esses poucos controlarem pacificamente a maioria; quanto mais, porém, esse conhecimento for socializado, maior a possibilidade de conquista ou do controle do poder pela maioria. Gramsci (1989) chama atenção para a necessidade de as camadas populares terem acesso ao conhecimento próprio da camada dominante da sociedade para se tornarem também governantes." (SANTA CATARINA, 1998, p.10)



Em outras palavras, para quem conhece um pouco de filosofia da educação, temos no discurso desta proposta uma influência explícita da perspectiva histórico-social(ou histórico-crítica) e, junto com ela, a superação da dicotomia inatismo-empirismo a partir de propostas pedagógicas fundamentadas no sociointeracionismo de Vigotsky e Wallon, e em concepções fenomenológicas. Um tipo de pensamento já bastante avançado em educação. Outro exemplo:


    Portanto, a partir deste ponto de vista, há diferença na formação do que se chama normalmente de inteligência, entre uma criança que vive em um meio social intelectualmente rico e outra que vive em um meio social intelectualmente pobre. Ser mais ou menos capaz de acompanhar as atividades escolares deixa de ser visto como uma determinação da natureza, e passa a ser visto como uma determinação social.
      Nesta perspectiva a criança (sujeito) e o conhecimento (objeto), se relacionam através da interação do social. Não há, portanto, uma relação direta do conhecimento (como algo abstrato) com a criança. Isto equivale a afirmar que o conhecimento não existe sozinho. Existe sempre impregnado em algo humano (ou um ser humano ou uma criatura humana, como o livro, um aparelho, o meio social). Na educação escolar, o professor passa a ter a função de mediador entre o conhecimento historicamente acumulado e o aluno. Ser mediador, no entanto, implica em também ter se apropriado desse conhecimento." idem, p.11



 Enfim, muitos provavelmente dirão, sem demora, que toda esta "abertura" se dá apenas no papel, e que ao tentar mudar as coisas na prática, nada é bem assim. Concordo plenamente. Haja visto a situação das Gereds e SDRs pelo Estado de Santa Catarina, onde tudo muda ao sabor dos ventos dos interesses políticos e disputas de egos do funcionalismo público. Entretanto, o que talvez muitos de nós não enxergam é o fato de que há grande abertura para fazer algo novo e, neste sentido, as leis estão ao lado da escola! Há não apenas o respaldo, mas também o incentivo para que cada escola passe a ser uma gestão autônoma, um foco próprio de difusão do conhecimento em conexão com o bairro, a comunidade, a família, etc.  Isso foi ainda mais intensificado com a Proposta Curricular de 2015.


É possível (a até provável) que "na real", como diriam meus alunos, o Estado não queira mesmo este tipo de articulação democrática e toda esta estrutura teórica progressista presente nos documentos seja tão somente uma grande demagogia, pronta a se revelar em face das primeiras tentativas substanciais de mudanças numa escola. Entretanto, se assim o for, o que posso concluir é que os políticos tem feito uma aposta bastante ousada, dando todo o apoio legal e o aporte teórico  para que se possa operar uma revolução no ensino, mas contando com a plena incapacidade de organização autônoma dos professores e da comunidade escolar para construir algo de seu!

Tal aposta arriscada, certamente não é um tiro no escuro (não se costuma arriscar sem um bom palpite!).  Em outras palavras, já há décadas a classe dos profissionais da educação pública no Brasil se vê muito mais envolvida com a tradicional luta política através dos movimentos sindicais do que com a tentativa de organizar de dentro para fora, de maneira autônoma e resistente cada escola e demais centros de educação. Estamos distraídos com um tipo de luta ultrapassado que já foi plenamente assimilado pelo poder público em suas formas de desarticulação, e assim deixamos escapar possibilidades muito efetivas de transformação que nos escorrem pelas mãos a cada planejamento anual. Transformações de dentro para fora, para as quais a máquina pública não está preparada para reagir, uma vez que os próprios parâmetros curriculares as sustentam.









 Obviamente, este tipo de transformação envolve muito mais dedicação e estudo do que se armar de faixas e apitos e ir para as ruas deixando os alunos para tás. Exige sair da postura de uma exigência passiva e para começar a criar algo novo, ali mesmo na correria do dia a dia das salas de aula.

Impossível? Profissionais corajosos e engajados em todo o Brasil começam, aos poucos a mostrar que não.  A esse respeito, o filme Quando sinto que já sei, nos oferece um alento!


http://porvir.org/mudar-escola-quando-sinto-ja-sei-conta-como-e/


Comentários

  1. Sensacional reflexão! Tbm recomendo o documentário "A educação proibida".

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  2. Professor Dante, obrigado por nos presentear com este post!!!

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