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Como ensino filosofia? # 23 - O Jogo da linha divisória

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A   É sempre bom ter algumas brincadeiras ou dinâmicas na manga para entreter os alunos. Elas servem para os dias em que a maioria da sala não está (véspera de feriados, perto das férias, etc.), ou também como moeda de troca na negociação cotidiana. Quando os alunos me pedem muito para fazer algo diferente e eu tenho outra coisa importante, então lanço o desafio: “se nos concentrarmos e terminarmos o que estamos fazendo, podemos jogar um pouco depois”.     O vídeo descreve esta dinâmica que chamei de “jogo da linha divisória”, algo bastante simples, mas que os alunos gostam bastante. Não tem segrego, o procedimento está explicado no vídeo. Mas algo que eu não disse ali é que é preciso do comando “volta”, depois de cada pergunta. Ou seja, após os alunos terem se posicionado para frente ou para trás conforme a resposta positiva ou negativa, é preciso retornar à linha de origem para a próxima pergunta. Então eu faço a pergunta, todos respondem se posicionan...

Como ensino filosofia # 22 - Exigir menos silêncio

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  No dia a dia fazemos silêncio por diferentes motivos: quando precisamos ouvir melhor o que alguém diz, quando precisamos pensar melhor em alguma coisa, quando estamos em grupo e outra pessoa está com a palavra; como aquele ditado que me repetiam quando eu era criança: “quando um burro fala os outros abaixam a orelha”. É verdade que o silêncio também pode ser um método para se acalmar ou buscar algo dentro de si mesmo, ainda que tal uso seja menos popular hoje em dia.   Embora a justificativa para o silêncio na escola seja a qualidade da concentração nos estudos, na prática o seu uso tem muito mais a ver com respeito e comportamento adequado. Faz parte do ensino escolar moldar crianças e jovens para se tornarem uma audiência, isto é, um coletivo capaz de permanecer ouvindo o que um só tem a dizer. É claro que esse aprendizado é importante para desenvolver a habilidade de socialização dos alunos. Todos nós sabemos como é desagradável encontrar gente sem noção n...

Como ensino filosofia? # 21 - Compartilhar um projeto pessoal

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  Dividir algo com meus alunos tornou-se um hábito. Com muito frequência conto a eles algo que vi, que vivi, que li ou que ouvi. Por vezes isso ocorre em meio a algum exemplo ou relação com o que estamos estudando, mas outra vezes não; é apenas para puxar assunto. Fazendo isso eu os entretenho, mas também acabo ensinando muitas coisas indiretamente.    Por conta deste hábito, com o passar do tempo percebi como é significativo compartilhar um projeto pessoal, ou seja, algo que você está desenvolvendo ao longo do ano letivo. Essa percepção ocorreu de forma bem natural: como eu costumo contar aos meus alunos um pouco da minha história de vida no primeiro dia de aula, todos eles ficam sabendo do motivo pelo qual me mudei, há sete anos, de Florianópolis para o município de Garopaba. E o que me trouxe para cá foi a intenção de ter um contato mais intenso com a natureza, cultivando parte dos meus alimentos. A este nosso projeto de vida eu dei um nome: “(agri)cu...

Como ensino filosofia? # 20 - Sobre ser legal

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     Uma sala de aula, como qualquer reunião social, consiste em um jogo de forças; de energias. Alguns professores têm sucesso em submeter todas as demais forças da sala à sua própria; por bem ou por mal. Este método, onde se opõe uma força às demais funcionou muito no passado e até pode continuar funcionando, mas sob a pena de que, a todo início de ano, o professor encontre pela frente o desafio de submeter cada classe à sua influência, seja da maneira que for. Alguns o fazem pela ostentação de uma sombria fama autoritária; outros de forma mais leve. Mas será este o único jeito?   Das minhas aproximações com a sabedoria milenar do Yoga, aprendo que o meio de superar forças que às vezes nos excedem é não se opor frontalmente a elas; mas deixar que encontrem seu fluxo. Mestre Hermógenes, em Yoga para nervosos (s/d) dá um fantástico exemplo: o do nadador experiente, que ao se ver em meio a uma forte corrente, não tenta nadar contra ela, mas se deixa levar faze...

Como ensino filosofia # 19 - O jogo das perguntas

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                     O jogo das perguntas    Como descrevi no vídeo, o jogo das perguntas é uma dinâmica de grupo que reservo para os momentos em que estamos copiando a matéria no quadro. Ao longo dos anos esta dinâmica deixou de ser apenas um passatempo para se tornar parte integrante do meu ensino de filosofia. Isto por que ela favorece um tipo de aprendizado que passei a considerar com uma das coisas mais necessárias e urgentes para o ensino escolar: o desenvolvimento da inteligência emocional.   O mais importante não é passar por várias perguntas, mas sim criar um ambiente onde a subjetividade possa aparecer de forma segura na sala de aula. Com as perguntas eu abordo temas pessoais ligados aos sentimentos, que raramente figuram como objeto de qualquer disciplina. Mas não se trata de questões que levem o aluno a expor sua vida pessoal em detalhes, e sim aspecto...

Como ensino filosofia? # 18 - Ensinar para todos é uma utopia

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Ensinar para todos é uma utopia   As reflexões feitas nesta série partem diretamente do chão da sala de aula, do fazer diário da educação junto aos jovens do ensino médio. Assim, o princípio geral de que “ensinar para todos é uma utopia”, talvez pareça de início uma posição conformista, ou mesmo exclusivista, sugerindo a imagem daquele professor que só dá atenção aos seus alunos mais interessados e capazes. Mas não é isso que pretendo afirmar.    A noção de que muito raramente se consegue a atenção plena de uma turma de ensino médio advém de uma posição realista e me ajuda justamente a não comprometer tanto a dinâmica das minhas aulas, como a maioria dos professores costuma fazer ao intercalar a exposição do conteúdo com chamadas de atenção e broncas recorrentes. Ao manter uma “expectativa de audiência” um pouco mais baixa, eu vou seguindo com minha exposição ou comentários e permito que os alunos se incluam cada um a seu tempo no ritmo da aula. As vezes isso ...

Como ensino filosofia? # 17 - Como ler um texto?

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Como ler um texto?  Este é um artigo aporético.   Me lembro que quando comecei a pensar seriamente em dar aulas de filosofa, eu me enxergava selecionando trechos de textos filosóficos e lendo com meus alunos. Embora soubesse das dificuldades para fazer com que jovens leiam mais e melhor, e embora ciente das dificuldades específicas que envolvem a leitura filosófica, eu pensava que talvez o segredo estivesse na seleção correta de pequenos trechos e em um trabalho mais atencioso de leitura conjunta. O empenho do professor deveria fazer a diferença. Eu iria então, com paciência, avançando na exposição e compreensão de pequenas partes do texto e esclarecendo ideias que não estavam evidentes aos alunos. Estes por sua vez, gradualmente começariam a compreender o texto em sua inteireza, reconhecer o seu valor enquanto uma “peça do pensamento humano” e, talvez, até admirar a habilidade do autor em conduzir nossa reflexão através de palavras tão bem colocadas… Mas isso foi um son...