Para uma boa atuação em sala de aula


Ser um bom professor não se resume a ter um bom método, ou dominar o conteúdo. No cotidiano da escola, uma grande aula depende de um feixe de elementos distintos, cujas possibilidades de combinação são múltiplas e que muitas vezes vai além daquilo que podemos controlar.

Quando todos estes elementos confluem, temos uma atuação não só boa, mas excelente. E que elementos são estes? A meu ver, são pelo menos 6:


Um método - sem dúvida, a ação pedagógica deve partir de uma intuição sobre como fazer. Mesmo a aula mais livre, que dependa totalmente  da interação dos alunos, sustenta o método de guiar-se pelas interações dos alunos e ver o que ocorre. Métodos podem e devem ser testados. Cada aula nos permite observar o funcionamento de uma metodologia e refiná-la aos poucos.

O conteúdo - obviamente, o que se ensina afeta diretamente o educando, desperta maior ou menos afinidade, pois cada um é único. Mas também o esforço por encontrar conteúdos pertinentes faz parte da aproximação educador-educando. Nesse sentido, conteúdos podem ser abordados das mais diferentes formas. As possibilidades de ligação entre diferentes conteúdos em filosofia não infinitas.  Encontrar as formas que funcionam, dar mais ênfase a isto ou aquilo em um plano de ensino é um processo que leva tempo e vai sendo construído com a prática.

Planejamento - é preciso planejar e seguir. Muitas vezes as coisas saem além do planejado, mas é possível ir corrigindo os desvios e se adaptando a eles. Aproveita-se o que funcionou e corrige-se o que não deu certo.  Entrar em sala e ter algo planejado a se fazer é fundamental para manter o respeito. Mais do que isso, é uma atitude de respeito com o próprio encontro entre educador e educandos.

Disposição - Nada disso adianta se, aula após aula, não exercitemos a nossa capacidade de estar bem dispostos; de esquecer dos problemas e aproveitar os momentos de interação. Ser entusiasta do que se está fazendo é um aprendizado que eu trouxe da cultura oriental. Entrar em sala com vontade, contra um grupo de jovens muitas vezes sem vontade de nada é justamente o grande desafio diário; e também uma forma de ensinar. (Acontece de meus alunos ficarem espantados com a minha empolgação em certos dias, frente a um cenário de sonolência e repetição. O contraste chama a atenção e faz pensar)


Didática - Além do que e como ensinar, é preciso exercitar a capacidade de captar a compreensão do outro ao seu discurso. Didática não é simplesmente saber ensinar; é saber fazer-se entender e, acima, de tudo, perceber quando isso não acontece, para operar modificações imediatas no discurso. Esse movimento dialético envolve paciência e criatividade, mas nos traz como retorno um feeling afiado da compreensão de indivíduos e grupos ao seu discurso.

A própria pessoa - o esforço de ser não somente um bom professor, mas também uma boa pessoa, acaba influenciando a forma como fazemos as coisas em sala de aula. Assim como os alunos "farejam" de longe a falsidade ou a incoerência entre atos e palavras dos professores, também podem sentir o contrário: o empenho em ser alguém melhor dentro e fora de sala. Isso faz parte de currículo oculto. É o que se ensina dia após dia sem dizer nada.  Sim, ser um grande professor envolve tentar ser uma grande pessoa.

Tenho cada vez mais pensado que ensinar (realmente) no século XXI está exigindo, antes de mais nada, um processo de auto-transformação  do educador. Quem não está ao menos inclinado a dar início a esta "transfiguração cognitiva" no âmbito pessoal, não terá como “aplicar” novas teorias da aprendizagem. O problema em sala de aula exige muito mais do que isso. 




 








Enfim, Tudo isso junto faz uma boa aula; um bom curso no ensino médio. Alguns dias funciona, outros não.  Não é fácil, mas acredito que seja mais motivador do que passar os dias brigando com os alunos, ou berrando...


Comentários

  1. Concordo, Dante, que a combinação dos 6 itens é a situação de excelência. Embora nem sempre isto seja possível.
    Parte do que você escreveu me lembrou uma interpretação que costumo fazer da aquela fala de Sócrates de nada ensina. No fundo, isto se dá porque dependemos do interesse do estudante. Se ele não se dispor a "entrar no jogo", não ver algum sentido no que tentamos passar, não haverá aprendizagem ou estratégia que o professor possa usar. Neste sentido, a base do processo está no educando. Isto que é fundamental para início do processo de aprendizagem, o professor não pode ensinar. É, no fundo, é isto que impulsiona o processo.
    Seria, então, o papel do professor persuadir o educando a "entrar no jogo"?

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  2. Costumo pensar que uma parte importante do meu trabalho é encontrar maneiras de ensinar filosofia para aqueles que não querem aprendê-la! Um pouco de retórica e bastante imaginação ajudam.

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